Roteiro de Finanças Livres de Desmatamento
O Roteiro propõe medidas práticas que as instituições financeiras podem adotar para lidar com sua exposição ao desmatamento, à conversão de ecossistemas e às violações de direitos humanos associadas em seus portfólios, com foco especial em cadeias de suprimentos, clientes e holdings cujas atividades estejam ligadas à pecuária no Brasil.
Como lidar com o desmatamento causado por commodities em seu portfólio: um roteiro passo a passo
O Roteiro de Finanças Livres de Desmatamento (com informações sobre o setor pecuário brasileiro) define claramente os requisitos regulatórios que as instituições financeiras devem cumprir, além de fornecer informações e ferramentas essenciais para avaliar e gerenciar esses riscos no contexto do Brasil. Ao se beneficiarem desses recursos, as instituições financeiras podem aprimorar suas estratégias de gestão de riscos relacionados à cadeia de suprimentos da pecuária no Brasil e cumprir seus compromissos de desmatamento zero com mais eficiência e transparência.
O Roteiro é dividido em cinco fases, além de uma seção sobre como avançar além do desmatamento zero rumo a uma abordagem positiva para a natureza e pessoas. Todas as fases estão disponíveis em inglês e português.
Clique abaixo para entrar no Roteiro interativo, começando pela Fase 1. Os menus na parte superior e inferior de cada página ajudam a facilitar a navegação entre as diferentes fases.
Eliminação do desmatamento causado por commodities: Roteiro de Finanças Livres de Desmatamento
Os portfólios financeiros podem ser expostos ao risco de desmatamento, vinculado à produção de commodities por meio de suas atividades de financiamento, de duas maneiras principais:
- Ao financiarem clientes/holdings (beneficiários de financiamento direto) que estiverem diretamente ligados a riscos de desmatamento por meio da produção ou processamento de commodities com risco florestal; ou
- Ao financiarem clientes/holdings (beneficiários de financiamento direto) que adquirirem produtos com risco florestal, ou que financiarem essas atividades e commodities.
O setor financeiro desempenha um papel essencial na promoção de mudanças rumo a uma economia livre de desmatamento, conversão de ecossistemas e violações de direitos humanos e é capaz de fazer isso de forma acelerada. Há uma necessidade urgente de que as instituições financeiras estabeleçam metas ambiciosas, interajam com seus clientes/holdings expostos aos riscos de desmatamento e colaborem com outras organizações para impulsionar mudanças em todo o setor financeiro.
Este Roteiro de Finanças Livres de Desmatamento recomenda os principais passos a serem adotados para que, dentro de prazos predefinidos, as instituições financeiras possam eliminar de seus portfólios o desmatamento, a conversão de ecossistemas e as violações de direitos humanos associadas que estejam vinculados à produção de commodities.
O Roteiro de Finanças Livres de Desmatamento oferece um caminho para que instituições financeiras compreendam, identifiquem e gerenciem os riscos em suas cadeia de suprimentos, avançando rumo a um futuro em que commodities não impulsionem o desmatamento, a conversão de ecossistemas ou violações de direitos humanos.
Este roteiro é aplicável a todas as instituições financeiras (por exemplo, bancos, gestoras de ativos, seguradoras). Lançado inicialmente na COP 26, em novembro de 2021, o documento fornece uma orientação completa com um cronograma claro de ações, permitindo contribuam para a eliminação do desmatamento, a conversão e violações de direitos humanos, eliminando de seus portfólios em quatro anos após a adoção do roteiro.
As atualizações do Roteiro, feitas em novembro de 2025, baseiam-se no Roadmap, com o objetivo de adaptar essas orientações às instituições financeiras expostas à cadeia de fornecimento da pecuária no Brasil. As atualizações foram lançadas em conexão com a COP30 – uma cúpula que colocou o desmatamento no centro da agenda climática.
A produção pecuária constitui o principal vetor de desmatamento e conversão global, tendo, portanto, mais capacidade que outras commodities para influenciar as taxas de desmatamento e as emissões de gases de efeito estufa associadas. O Brasil é responsável por quase 60% do desmatamento global causado por pastagens. No Brasil, a cadeia de suprimentos da pecuária, quando combinada à agricultura (como, por exemplo, a produção de soja), é a causa de até 97% de todo o desmatamento e conversão de ecossistemas. Contudo, oito em cada dez (83%) empresas com maior influência nessas cadeia de suprimentos ainda não publicaram compromissos de combate ao desmatamento para pelo menos uma das commodities pecuárias relevantes para elas (a avaliação foi feita com base em sua conexão com a produção de carne bovina e couro no Brasil).
Nas quatro últimas décadas, o Brasil perdeu uma área de vegetação nativa comparável ao tamanho combinado do Reino Unido, França e Itália. As áreas de pastagem aumentaram mais de 60% no mesmo período.
A destruição de florestas e outros ecossistemas libera gases de efeito estufa na atmosfera e, ao mesmo tempo, elimina importantes estoques de carbono, comprometendo a capacidade contínua desses ambientes de absorver o dióxido de carbono da atmosfera. Como resultado, o desmatamento é responsável por aproximadamente metade das emissões de gases de efeito estufa do Brasil. Para que o Brasil e suas instituições financeiras possam cumprir seus compromissos com metas globais — como a Declaração da ONU para deter e reverter o desmatamento até 2030 — e zerar suas emissões líquidas até 2050, é importante que o desmatamento associado à pecuária seja enfrentado urgentemente.
Em 2024, a Amazônia brasileira enfrentou sua pior seca da história. Inundações na região Sul do país, onde grandes áreas de ecossistemas naturais foram convertidas em plantações e pastagens, deixaram milhares de pessoas desabrigadas. As empresas e seus lucros também enfrentam riscos: já se nota uma redução da produtividade das colheitas; as secas e queimadas derrubaram o PIB do agronegócio brasileiro em 2024; a queda no terceiro trimestre de 0,8% no PIB do agronegócio superou as expectativas.
As cadeias de suprimentos da pecuária no Brasil são altamente complexas, e os riscos de desmatamento, conversão de ecossistemas e violações de direitos humanos associadas podem ser ocultados por fornecedores indiretos. Certas lacunas na rastreabilidade permitem que o gado proveniente de áreas desmatadas ilegalmente seja “lavado” por meio de fornecedores indiretos, o que dificulta o rastreamento de sua origem e a identificação de riscos pois, antes de chegar no abate, os animais podem passar por até três tipos de fazendas: cria, recria e engorda. A seção sobre a Fase 1 contém mais informações sobre a “lavagem de gado”.
Esse contexto pode resultar em um baixo nível de visibilidade nas cadeias de suprimentos da pecuária no Brasil, com muitos frigoríficos apresentando nível médio ou baixo de visibilidade sobre os estágios de reprodução ou crescimento. Isso dificulta a identificação e o gerenciamento dos riscos de desmatamento; e, a menos que todas as empresas adotem medidas proativas, tais riscos continuarão a persistir e a se intensificar. Felizmente, há ferramentas e estratégias disponíveis para ajudar as empresas a resolver esse problema e melhorar a visibilidade de suas cadeias de suprimentos, garantindo transparência entre todos os fornecedores. As instituições financeiras, em particular, desempenham um papel fundamental na promoção de mudanças nas empresas envolvidas nas cadeias de suprimentos da pecuária no Brasil por meio da implementação de políticas eficazes, além de medidas de monitoramento e engajamento.
O desmatamento ligado à pecuária no Brasil é um grande desafio que exige ações coordenadas e colaborativas de diversos atores envolvidos com a cadeia da pecuária. A simples mudança das regiões de fornecimento não reduz a exposição das empresas ou de seus financiadores aos riscos, a menos que o desmatamento em si seja interrompido. É necessário, portanto, que as empresas que apresentam riscos mais altos participem da busca de soluções para a sustentabilidade de suas práticas. Sem essa colaboração, os riscos físicos e econômicos só tendem a aumentar. Já estamos observando um deslocamento do desmatamento: de ecossistemas de importância crítica, como a Amazônia, para outras regiões, como o Cerrado. Já se notam, também, certas consequências que se estendem além das fronteiras do Brasil, com “vazamento” de desmatamento para o Paraguai e a Bolívia. Os riscos financeiros associados ao desmatamento e à conversão de ecossistemas continuam a crescer, e não são riscos isolados.
Os governos têm divulgado mensagens promissoras sobre como desvincular a atividade produtiva do desmatamento. A Declaração de Líderes do Rio de Janeiro salientou a importância de interromper e reverter o desmatamento e a degradação florestal até 2030, juntamente com o compromisso de mobilizar financiamento para as florestas por meio de mecanismos inovadores como o Fundo Floresta Tropical para Sempre. Recentemente, o Governo Federal, por meio do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), aplicou multas de R$ 364 milhões (US$ 64 milhões) a fazendas de gado e frigoríficos por criarem gado em terras desmatadas ilegalmente na Amazônia ou adquirirem animais originários dessas terras. O governo do Pará (estado que sediará a COP 30 em 2025) estabeleceu as metas de rastrear 100% de seu rebanho até 2026 e recuperar 20% de suas pastagens degradadas.
Outros estados adotaram estratégias alternativas para avançar nesse tema. Um exemplo é a abordagem jurisdicional Produzir, Conservar e Incluir (PCI) de Mato Grosso, que integra políticas públicas, colaboração público-privada e mecanismos de monitoramento para evitar o “vazamento” de desmatamento dentro de determinada jurisdição. Ao reunir diversos atores interessados, a iniciativa busca garantir que todos os produtores sejam incluídos, promovendo ampla participação nos esforços para uma cadeia de suprimentos sustentável.
Isso exemplifica como o Brasil pode ser um líder no fim do desmatamento. Nos últimos anos, o governo federal tomou medidas decisivas para aplicar a legislação e proteger os direitos humanos, resultando na queda do desmatamento para os níveis mais baixos desde 2016. Enquanto o desmatamento global continua a crescer, o progresso recente do Brasil mostra que a mudança é possível com vontade política e ação coordenada.
Esse momento representa uma oportunidade clara. Após um ano de atraso, a Regulamentação da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) deve entrar em vigor no final de 2025. Embora seu impacto possa variar entre os diferentes setores, ele tem o potencial de mudar as expectativas do mercado — especialmente combinado com a crescente demanda da China por carne bovina livre de desmatamento e conversão.
Esses desdobramentos refletem um crescente reconhecimento geopolítico e jurídico de que proteger a natureza e zerar o desmatamento não é apenas um imperativo ambiental, mas, também, uma estratégia para garantir estabilidade econômica no longo prazo. Esses regulamentos são vitais para dar suporte às instituições financeiras na redução e no enfrentamento de sua exposição ao desmatamento. Qualquer interrupção nesses mecanismos aumentaria os riscos e as incertezas, gerando riscos à reputação e riscos de conformidade, bem como riscos financeiros para as instituições financeiras.
As instituições financeiras têm o dever fiduciário de avaliar e gerenciar os riscos financeiros vinculados ao desmatamento. O esgotamento do capital natural causado pelo desmatamento gera consequências financeiras significativas para diversas atividades econômicas, influenciando os valores dos ativos, aumentando os custos operacionais e prejudicando a estabilidade do mercado. Combater o desmatamento não é apenas uma obrigação ambiental, mas também uma necessidade estratégica para manter a resiliência financeira e garantir a lucratividade no longo prazo. Ao mesmo tempo, as instituições financeiras que financiam empresas de alto risco têm uma oportunidade única de impulsionar mudanças positivas. Ao influenciarem o mercado, desempenham um papel fundamental no cumprimento das metas climáticas de zerar as emissões líquidas, protegendo ecossistemas naturais e posicionando o Brasil como líder global na preservação de florestas e da biodiversidade. Gerenciar proativamente esses riscos fortalece os resultados ambientais e financeiros, alinhando os interesses comerciais com as metas de sustentabilidade mais amplas.
Atualmente, as empresas com maior influência nas cadeia de suprimentos da pecuária no Brasil têm, em sua grande maioria, a oportunidade de realizar melhorias significativas para responder efetivamente aos riscos e aos impactos do desmatamento, da conversão de ecossistemas e das violações de direitos humanos associadas, com sinais positivos de apoio dos governos federal e estaduais. As instituições financeiras também podem melhorar sua atuação, trabalhando para desenvolver políticas de due diligence e avaliação de portfólios alinhados a boas práticas. Para tal, precisam ir além dos requisitos regulatórios regionais e nacionais, buscando um alinhamento a práticas de zero desmatamento e conversão de ecossistemas, independentemente de seu status de legalidade.
O Brasil apresentou uma visão pioneira sobre a transição para bioeconomias sustentáveis no âmbito do G20 e em outros fóruns. Por enfrentar alguns dos maiores riscos e ter experiências particularmente relevantes no combate ao desmatamento, o país pode moldar (e aprimorar) o debate global sobre negócios, finanças e meios de subsistência sustentáveis.
O Roteiro de Finanças Livres de Desmatamento também passou a incluir um conjunto de orientações modulares adicionais para as Fases 1 e 2, projetadas especificamente para as instituições financeiras que investem direta ou indiretamente no setor da pecuária no Brasil. Isso abrange todos os tipos de instituições financeiras sediadas no Brasil ou no exterior, inclusive bancos e seguradoras. O roteiro também oferece informações e orientações adicionais que permitem que as instituições financeiras entendam, identifiquem e enfrentem os riscos de desmatamento em suas cadeias de suprimentos da pecuária no Brasil. Até o final de 2025, a Global Canopy pretende disponibilizar orientações adicionais também para as fases 3, 4 e 5.
Como usar este roteiro
O roteiro está estruturado em cinco fases:
- Mapeamento de riscos
- Definição de uma política eficaz e gestão de riscos
- Monitoramento e engajamento
- Transparência
- Eliminação do desmatamento
Cada fase tem um ou dois passos subdivididos em ações recomendadas específicas. O roteiro também contém um conjunto de orientações modulares adicionais para a Fase 1 e a Fase 2, projetadas especificamente para as instituições financeiras que investem direta ou indiretamente na cadeia de suprimentos da pecuária no Brasil. Essas orientações adicionais encontram-se destacadas em verde no diagrama acima. Até o final de 2025, a Global Canopy pretende disponibilizar orientações adicionais também para as fases 3, 4 e 5.

As orientações para o Brasil foram elaboradas pela Global Canopy em consulta com um grupo de trabalho de organizações da sociedade civil e instituições financeiras sediadas no Brasil, com base no Finance Sector Roadmap publicado em 2021 pelo Grupo Consultivo de Finanças e Desmatamento.
Esses passos não são necessariamente lineares e podem ser concluídos em qualquer ordem dentro de cada fase. No entanto, cada um dos passos é uma parte essencial do processo e deve ser cumprido para garantir que sejam eliminados dos portfólios o desmatamento, a conversão de ecossistemas e as violações de direitos humanos associadas vinculados à produção de commodities.
Para dar suporte a metas e objetivos globais e atingir portfólios livres de desmatamento, conversão de ecossistemas e violações de direitos humanos vinculados à produção de commodities, todas as etapas e ações recomendadas incluídas neste roteiro devem ser concluídas em quatro anos (ou o quanto antes) a partir da adoção do roteiro ou até 2025 pelas instituições financeiras que adotaram o roteiro em seu lançamento em 2021.
Se sua organização já estiver implementando medidas para eliminar os riscos relacionados ao desmatamento, à conversão de ecossistemas e a violações de direitos humanos, pedimos que identifique em que estágio ela se encontra com base nas fases descritas neste roteiro e, em seguida, continue a partir daí, seguindo as recomendações objetivas de prazos para cada fase.
Além de seu foco principal na redução de riscos, o roteiro também destaca ações adicionais que as instituições financeiras podem adotar para redirecionar seus recursos para financiar positivamente a natureza e as pessoas.
Este roteiro reúne, em um só lugar, outras orientações já publicadas — inclusive boas práticas para empresas que atuam nas cadeias de suprimentos de commodities com alto risco, conforme definido pela iniciativa Accountability Framework — e conjuntos de dados e ferramentas recomendados. Ele destaca em que ponto dos processos cada orientação ou dado é mais relevante.