80% dos líderes da pecuária ignoram o desmatamento no Brasil
Insight
11th December 2024
Grandes empresas e instituições financeiras falham em definir e implementar políticas de combate ao desmatamento associado à cadeia da pecuária no Brasil.
Text also available in English.
Como maior impulsionadora agrícola do desmatamento global, a pecuária é o setor mais influente no combate a este problema e na redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) associadas.
O Brasil é responsável por quase 60% do desmatamento global causado por pastagens, com a pecuária contribuindo significativamente para a degradação ambiental e emissões de GEE. Nos últimos 40 anos, o país perdeu uma área de vegetação comparável ao tamanho combinado da França, Itália e Reino Unido, enquanto as áreas de pastagens cresceram em quase 80%.
Enfrentar o desmatamento neste setor é crucial para atingir as metas climáticas globais. Junto com governos em todo o mundo, o Brasil se comprometeu a interromper e reverter a perda global de florestas e a degradação da terra até 2030.
No entanto, o novo relatório Floresta 250 – Pecuária, publicado hoje, destaca que o setor privado precisará de mais esforço e mobilização com políticas, implementação e divulgação para atingir a meta nacional.
O relatório identifica as 175 empresas e 75 instituições financeiras com maior influência no desmatamento impulsionado pelas cadeias de suprimentos da pecuária no Brasil. Ele avalia as organizações com base na robustez e implementação de seus compromissos sobre desmatamento, conversão de ecossistemas e abusos de direitos humanos associados.
Principais achados
Compromissos estão aquém do necessário
- Oito em 10 (83%) empresas avaliadas ainda não publicaram compromissos relacionados a desmatamento para, pelo menos, uma das commodities relevantes (elas são avaliadas com relação a carne bovina e couro).
- Da mesma forma, 80% das instituições financeiras ainda não publicaram políticas de desmatamento para produtos da pecuária. O dado inclui Vanguard, BlackRock e JP Morgan Chase, as três instituições que mais financiam as empresas avaliadas.
Implementação segue limitada
Compromissos devem ser acompanhados de implementação e transparência, mas a ação das empresas nesse quesito também é fraca. Mesmo entre as empresas e instituições financeiras que possuem compromissos de combate ao desmatamento, poucas publicam evidência de implementação.
- Das empresas avaliadas, 91% não divulgam publicamente nenhum dos seus volumes de couro como livre de desmatamento e/ou conversão de ecossistemas; 88% não divulgam para a carne.
- Mesmo entre as empresas com compromissos públicos, muitas não exigem que os fornecedores estejam alinhados ou comprometidos com práticas livres de desmatamento e/ou conversão de ecossistemas em todas as suas operações. Apenas 24% exigem isso de seus fornecedores para carne bovina, e 31% para couro.
- A implementação do lado das instituições financeiras também é decepcionante. Apenas 8% das instituições financeiras com uma política pública de desmatamento têm práticas vigentes de engajamento com clientes/empresas para colocá-los em conformidade com práticas livres de desmatamento e/ou conversão.
- Apenas 6% das instituições financeiras exigem que clientes/empresas assumam um mecanismo de rastreabilidade. Desse grupo, metade (3%) exige que clientes/empresas também monitorem o comprometimento de combate a desmatamento e/ou conversão de ecossistemas, para além dos mecanismos de rastreabilidade.
Direitos humanos são completamente ignorados pelos principais atores
Qualquer abordagem eficaz para combater o desmatamento nas cadeias de suprimentos e portfólios financeiros deve incluir as violações dos direitos humanos. Quatro áreas de direitos humanos são essenciais para uma abordagem eficaz sobre o desmatamento e a conversão de ecossistemas: respeito aos direitos consuetudinários à terra, aos recursos e ao território; garantia do Consentimento Livre, Prévio e Informado (CLPI); abordagem de tolerância zero à violência e às ameaças contra os defensores das florestas, da terra e dos direitos humanos; e respeito aos direitos trabalhistas. Os achados do Floresta 250 – Pecuária mostram pouco progresso nessa frente.
- Apenas três das 175 empresas (Nestlé, General Motors e Colgate-Palmolive) têm um compromisso publicamente disponível para as questões mais críticas de direitos humanos nas cadeias de suprimentos.
- Nenhuma das instituições financeiras avaliadas tem políticas disponíveis publicamente para a pecuária.
Recomendações para ação
Com o mundo se preparando para a COP30 em Belém em 2025, o relatório Floresta 250 – Pecuária pede ações urgentes por parte de empresas e instituições financeiras. Até a COP30, é necessário adotar as seguintes ações mínimas:
- As empresas devem ter publicado compromissos abrangentes de desmatamento para todas as commodities de alto risco às quais estão expostas e as questões mais críticas de direitos humanos, com metas temporais ambiciosas para atingir esses objetivos. Elas também devem relatar publicamente o progresso e divulgar como planejam implementar esses compromissos.
- As instituições financeiras devem entender, identificar e reconhecer publicamente os riscos impostos pelo desmatamento, conversão de ecossistemas e abusos de direitos humanos associados. Isso inclui conduzir uma avaliação de risco de seus portfólios e categorizar clientes/empresas por nível de risco para priorizá-los para engajamento. Elas devem se envolver com os clientes para garantir a conformidade com os padrões livres de desmatamento e dar suporte a mecanismos de rastreabilidade para verificação de origem.
As empresas e instituições financeiras com as maiores participações nas cadeias de suprimentos da pecuária do Brasil têm uma oportunidade clara para uma ação direcionada, que pode turbinar o progresso global em direção às metas de natureza e clima. Esses novos dados revelam os próximos passos críticos para os principais atores, e muitos olhos estarão atentos para ver os rumos que serão tomados.
This insight was originally published on the Global Canopy website.